Desafios e questões relacionadas ao mundo do trabalho dos(as) psicólogos(as)

Modo como o trabalho está organizado nos contextos laborais representa hoje importante fonte de sofrimento trabalhadores (as).

“Este trabalho está me deixando louco”, “Estou estressada com este trabalho”, “Não aguento mais”, entre outras expressões semelhantes, não são estranhas às conversas cotidianas, aos espaços de escuta dos (as) psicólogos (as) nos diferentes espaços do seu trabalho e à vivência desses profissionais enquanto trabalhadores (as). Estatísticas de órgãos de saúde e previdenciários confirmam essa tendência. A Organização Mundial de Saúde (OMS) registra a presença de 30% de trabalhadores com transtornos mentais leves e 5% a 10% com transtornos mentais graves. As estatísticas do Instituto Nacional de Previdência Social no Brasil apontam que os chamados “transtornos mentais e do comportamento” representam a terceira causa para o afastamento do trabalho.

O que isso significa? Considerando que o trabalho enquanto atividade de transformação entre o homem e a natureza, portadora de significado e constitutiva da subjetividade e que se expressa na identidade na analogia entre o que eu sou e o que eu faço, sua expressividade se reporta ao seu aspecto negativo de sofrimento e castigo, e não à sua potencialidade como fator de inserção e integração ao mundo social.

A literatura aponta o quanto alguns fatores, como a exposição a agentes tóxicos, têm os aspectos psicológicos como as primeiras evidências de transtorno mental, e a exposição a agrotóxicos é a evidência mais significativa para explicar o elevado número de diagnósticos de depressão entre agricultores. Mas não é só isso: o modo como o trabalho está organizado nos contextos laborais representa hoje importante fonte de sofrimento entre os (as) trabalhadores (as). Palavras como “guerra”, “sobrevivência”, “combate” e “luta” são comuns nos contextos de trabalho e todos nós sabemos quais as repercussões desses significantes no nosso psiquismo. Ainda, outro exemplo, são as repercussões psíquicas dos acidentes e doenças relacionadas ao trabalho, associadas à autoimagem quando de mutilações, à dependência em relação a outros para as tarefas cotidianas, à subordinação aos serviços de saúde e aos serviços previdenciários, entre outras fontes de sofrimento.

Todas essas questões não são estranhas ao mundo do trabalho dos(as) psicólogos(as). Ao contrário. São parte do seu cotidiano enquanto trabalhadores(as) e com algumas especificidades enquanto uma categoria majoritariamente feminina e voltada preferencialmente a atividades relacionadas ao cuidar de outros. Atividades ligadas ao cuidar, conforme a literatura, estão associadas à chamada Síndrome de Burnout, prevalente entre profissionais da educação e da saúde. Pesquisa realizada com psicólogos (as) brasileiros revelou que, em sua maioria, apesar da exaustão emocional relatada, a realização pessoal com o trabalho realizado se apresentava como importante recurso para o alívio do sofrimento oriundo tanto das condições precárias de trabalho a que muitas vezes está exposto, como aos modos de sua organização em que “guerra”, “luta” e o assédio moral não lhe são desconhecidos.

No entanto, quer na sua atividade profissional, quer na avaliação de seu sofrimento psicológico, nem sempre a categoria trabalho é considerada na compreensão deste sofrimento, haja vista a tradição de desconsideração da categoria trabalho na etiologia do sofrimento psíquico. São muitas as explicações para tanto, desde a hegemonia de concepções teóricas que privilegiam características individuais (como genética e/ou relações da primeira infância), perspectivas reducionistas na compreensão do processo saúde/doença mental, fragmentação do campo psicológico (em que, por exemplo, o campo da Saúde Mental não dialoga com o campo da Saúde do Trabalhador), entre outros.

Para compreender os desafios e questões relacionadas ao mundo do trabalho dos (as) psicólogos(as), é necessário compreender a trama complexa que se traduz na trajetória de cada trabalhador(a), o que explica porque nem todos expostos a situações semelhantes adoecem ou manifestam o mesmo grau de desgaste. Esse é o desafio a todos nós psicólogos (as) enquanto trabalhadores(as).

FONTE: Site CFP

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