Psicologia na Equipe de saúde: a diferença entre adesão ou resistência ao tratamento

Uma das grandes dificuldades que a equipe de saúde encontra na lide com a doença (leia-se doentes e familiares) é a falta de adesão aos programas de tratamento.
A psicologia, enquanto parte desta equipe vem encontrando se nem sempre uma solução, ao menos as causas do problema. E, descobrindo-se as causas, fica mais provável achar soluções.
Em 2009, Marilza Mestre e duas alunas (Andressa Linhares e Ana Cláudia Blanchet) desenvolveram pesquisa sobre o papel do Luto na adesão ou ausência desta.
As doenças e, a maior parte dos tratamentos, envolve sofrimento, dores orgânicas, perdas biopsicosociais. E, perder significa vivenciar luto. Kluber-Ross (1984) estabeleceu na década de 50 do século passado, estudando pacientes terminais no setor de oncologia, descobriu que este ocorre em fases e que tem a função de preparar as pessoas para enfrentar tais perdas. Ou para aceitá-las ou pra reaver o que foi perdido. A autora dizia que as fases de qualquer luto passaria por: negação, medo, raiva (revolta), depressão e aceitação, nesta ordem.
Em 2009 a pesquisa demonstrou que as fases na verdade não são fixas, nem todo mundo passa por todas elas e se entendeu que existem apenas três fases que se subdividem em subfases. Para Mestre, Linhares e Blanchet (2009) as fases seriam: negação, quase aceitação e aceitação. Discordam que exista ordem de apresentação, pois elas são instáveis e alguém pode viver mais de um sentimento-pensamento-ação simultaneamente. Demonstram também que a cada estágio da doença e ou do tratamento (sejam quais forem tais doenças) alguma ação (comportamento) será evidenciada. Quer o individuo tenha consciência ou não do que está sentindo-pensando.
Via de regra, ao ser diagnosticado, é “normal” (comum) sentir a negação. Esta pode ser parcial ou total. Ao se defrontar com a noticia e quanto mais grave ou desconhecida for esta (dependendo da cultura e do contexto em que a pessoa vive) mais geral ela será. Por negação se entenda a produção de alta intensidade de endorfinas que “anestesiam” a capacidade intelectual (impedindo ou dificultando a compreensão do que o profissional está dizendo. Se for total a pessoa realmente irá acreditar que não tem “nada” e seguirá com a vida e seus hábitos nocivos que produziram a doença. Se parcial, esta será experimentada desde ao “Não, isto não está acontecendo comigo”! ou ” Este médico está exagerando, isto não é bem assim”! ou “ AH! Nem precisa tudo isto”. Não só o paciente, mas também familiares passam ou poderão passar por tal fase.
Depois em algum momento, durante a doença, quer tratando ou não, poderá viver a “Quase-aceitação”. Nesta fase se tem a consciência da doença e por tê-la se poderá variar em comportamentos como o medo, a raiva, a depressão, angústia, ansiedade e barganha com o sagrado (seja qual for a religiosidade) do tipo: “se eu sarar, juro que nunca mais eu…”; poderá também ocorrer algo que as autoras descrevem como “dependência emocional” entre o doente e o familiar que lhe serve de cuidador. Esta dependência pode crescer em atitudes crescentes de controle um do comportamento do outro, criando situações catastróficas ao bom prognóstico ao tratamento.
Por fim e se trabalhado, o doente, a família (e família não significa laços de sangue, mas sim laços de afeto) poderão fazer a real aceitação da doença. Quando isto ocorre haverá adesão salutar ao processo de se tratar. Tanto no sentido de recuperar ou adquirir qualidade de vida e realizar as mudanças de hábitos necessários ao bom desenvolvimento de tratar-se. Também poderá estar aptos a viver a boa qualidade morte que é desapegar-se e sem desepero se preparar para a morte, quer a própria, quer a do parente amado.
A equipe de saúde também vivencia estas fases e é freqüente ao psicólogo trabalhar com seus pares de equipe estes sentimentos-pensamentos, evitando ou diminuindo quadros de “burnout” freqüente em cuidadores de saúde ou o que se conhece como equipe de saúde.
A pós graduação em psicologia da saúde, do consultório ao hospital, com inicio para junho de 2016 irá trabalhar com esta e outras situações do viver com a díade saúde-doença. Dois cursos de extensão irão antecipar alguns conceitos em março de 2016: Oficina de técnicas psicológicas para controlar a ansiedade e habilidades sociais nos relacionamentos da equipe de saúde. Maiores informações no site da Inspirar ou no site de Marilza Mestre.
Marilza Mestre
• Psicóloga (CRP-08/0777), professora Doutora.
• Coordenadora do Curso de pós-graduação em Psicologia da Saúde: do consultório ao Hospital, na Faculdade Inspirar;
• Diretora do Instituto Marilza Mestre (www.marilzamestre.com – fone: 84160984)

Por Dra. Marilza Mestre[1]
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[1] Coordenadora do curso de pós-graduação em Psicologia da Saúde: do consultório ao hospital e diretora do Instituto Marilza Mestre(www.marilzamestre.com)

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