TREINAMENTO FUNCIONAL PARA O SURFE

A pré-temporada já faz parte da agenda de muitos surfistas profissionais

Foi-se o tempo em que surfista profissional focava seu treinamento exclusivamente dentro d’água. Desde que Kelly Slater provou que atividades físicas e hábitos saudáveis são capazes de influenciar nos resultados, surfistas profissionais, que antes não ligavam muito para a preparação fora d’água, se tornaram verdadeiros atletas.

A evolução das manobras está exigindo cada vez mais da parte física dos surfistas de ponta e por isso um grupo de profissionais, cada vez maior, está se especializando em um treinamento voltado para este segmento.

Ricardo Vilalva, de 41 anos, há 20 faz um trabalho de preparação física voltado para o surfe. Após ter treinado Bernardo Pigmeu, Victor Bernardo, Rodrigo Koxa, Alejo Muniz e Jesse Mendes, entre outros, Ricardo percebeu a importância da pré-temporada.

“Devido ao calendário competitivo, fazemos uma pré temporada que geralmente dura de 4 a 5 semanas e logo depois eles voltam pro Hawaii ou vão direto para perna Australiana!”

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Junior Faria trabalhando o equilíbrio. Foto: Arquivo pessoal Ricardo Vilalva

Outro nome muito respeitado neste segmento é o de Allan Menache, que trabalha nesta temporada com 3 surfistas da elite do surfe mundial (Gabriel Medina, Jadson André e Italo Ferreira). Diretor técnico da AV Treinamento Inteligente em São Paulo, preparador físico do Instituto Marazul e treinador consultor do Core 360 treinamento funcional, Allan considera a pré-temporada o momento mais importante do ano para os treinamentos físicos.

“Preconizamos a pré-temporada para todos os atletas pois este é o momento mais importante do ano de treinamentos físicos, visto que o atleta volta de férias fora das condições ideais para o início do Tour.”

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Gabriel Medina é um dos adeptos do treinamento funcional. Foto: Arquivo pessoal Allan Menache

A agenda dos surfistas profissionais é bastante movimentada, por isso o período de janeiro, que costuma ser de férias para eles, muitas vezes precisa ser interrompido para que os preparadores físicos entrem em ação. É neste período que os professores iniciam um trabalho muscular para que os competidores consigam não só retomar o ritmo de surfe, mas também estar preparados para os 11 meses de competição e freesurfe pelo mundo.

Por se tratar de um esporte no qual os atletas viajam muito e muitas vezes não possuem academias por perto, o treinamento funcional é o mais indicado. Assim como carregam as pranchas, os surfistas preocupados com a preparação física também levam elásticos e uma bola.

Os preparadores físicos que não podem acompanhar seus clientes recorrem as tecnologias disponíveis como whatsapp, Skype e Facetime, para conversar com os surfistas.

A preparação do treinamento varia de acordo com a agenda dos surfistas. Para a Snapper Rocks, por exemplo, que é uma onda longa, os exercícios aeróbicos e os que fortalecem as pernas são priorizados. Já em Pipeline, o treinamento é voltado para explosão para entrar na onda e apnéia. Charles Saldanha, pai e treinador de Gabriel Medina, acredita que a escolha pelo treinamento funcional foi determinante para o sucesso de Medina em 2014.

“É um treino que contempla as mais variadas técnicas e estratégias possíveis para serem aplicadas a um atleta. No caso dele, a atividade é voltada para o surfe. O planejamento trabalha especificidades, mas também os aspectos gerais.”

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Jadson André durante treinamento com Allan Menache. Foto: Arquivo pessoal

LESÕES

Além de ter que lidar com a agenda complicada dos surfistas profissionais, os preparadores físicos muitas vezes acabam tendo que mudar o cronograma de exercícios devido a lesões. As manobras cada vez mais elaboradas exigem muito do corpo e quando ocorre uma torção de joelho ou tornozelo, a preparação física se volta para a recuperação da forma mais rápida possível da parte do corpo lesionada.

Confira abaixo a entrevista com Allan Menache, que além de trabalhar com Gabriel Medina, Jadson André e Italo Ferreira, também cuida da preparação física do Caio Ibelli:

– Como funciona a preparação para os surfistas?

Preconizamos a pré-temporada para todos os atletas pois este é o momento mais importante do ano de treinamentos físicos, visto que o atleta volta de férias fora das condições ideais para o início do Tour. O modelo de preparação segue a linha do Treinamento Funcional com o embasamento técnico do Sistema Core 360, onde é planejada a periodização do treinamento que leva em conta o calendário competitivo e de viagens de free surf e demais compromissos do atleta com seus patrocinadores, bem como sua necessidades e objetivos. A periodização do treinamento tem como principal objetivo organizar de maneira lógica os estímulos ao longo da temporada com fases de treinamento distintas e que se complementam.

– Você trabalha com treinamentos específicos para cada tipo de onda?

Sim, o planejamento leva em conta o tipo de onda, que tem suas características, mais manobras, batidas, aéreos, tubos, onda mais cheia ou mais buraco, longa ou curta, grande ou pequena, etc. Na Gold Coast as ondas exigem maior power surf onde as manobras com grande pressão são mais valorizadas com potentes rasgadas, batidas, cut backs, floaters, enfim, mais manobráveis, porém com potencial para os tubos, portanto o treinamento exige muita resistência, agilidade e potência. Em Jeffrey’s Bay, na África do Sul, temos uma onda extremamente longa com várias sessões que mesclam as manobras com tubos profundos e onde a resistência e a força são muito exigidas, visto que a água é extremamente gelada o que acaba influenciando negativamente a performance de surfistas mal preparados fisicamente. Em Pipeline, geralmente as condições são muito pesadas com tubos muito rápidos, porém profundos onde a explosão e agilidade para se dropar a onda são fundamentais e posteriormente a base sólida do surfista e a força muscular acabam fazendo a diferença.

– Existe exercícios para manobras específicas?

Sim, mas o treinamento funcional tem como maior foco treinar as especificidades relacionadas a produção de força, bem como o metabolismo exigido e também movimentos específicos, embora nem sempre treinar a mimica do movimento realizado dentro da água seja a melhor solução. Pela complexidade da modalidade surfe encontramos os melhores resultados para o aprimoramento dos movimentos quando fragmentamos movimentos complexos em movimentos mais simples, treinando-os parte a parte para que durante a prática do esporte o surfista consiga transferir os aspectos coordenativos da melhor forma.

– A agenda dos surfistas é bem complicada. Como funciona o seu trabalho com surfistas profissionais?

Com educação e conscientização daquilo que deve ser realizado nos momentos em que o treinador não está com o atleta. Com a intensa rotina de viagens e uma cultura esportiva que não vislumbrava até pouco tempo atrás a preparação física como importante para o rendimento dentro da água, ainda é bem difícil manter o surfista profissional treinado o ano todo para suportar as demandas do seu esporte.

– Quais grupos musculares vocês mais trabalham?

O corpo todo com ênfase nos músculos da região do “Core” e os Membros inferiores, mas nosso entendimento é sempre sistêmico onde o planejamento começa com o treinamento global e pouco a pouco vai dando lugar ao treinamento mais específico em fases que devem contemplar um ciclo que tem começo, meio e fim.

– Qual é a diferença entre treinamento funcional e musculação?

O treinamento funcional treina movimentos e a musculação treina músculos. No TF são treinadas todas as capacidades físicas de forma equilibrada e específica ao indivíduo e também ao objetivo final, portanto força, resistência, equilíbrio, coordenação, flexibilidade e suas combinações são componentes fundamentais de um bom programa de TF Na musculação no geral se treina Força de resistência ou resistência de força e a importância das outras capacidades é muito limitada.

– Existe um trabalho de acompanhamento ao longo do ano?

Depende do planejamento que é desenvolvido para cada atleta. Geralmente sim, mas a logística por vezes é bem difícil em função de algumas variáveis como período do campeonato, local, infra-estrutura, equipe que acompanha o atleta, alimentação, etc.

– Você trabalha com o uso de suplementos alimentares?

Esta responsabilidade deixamos para o médico e/ou nutricionista do atleta. Procuramos sempre o trabalho interdisciplinar para otimizar os resultados do atleta.

– Os surfistas que chegam até você procuram mais o que: resistência, massa muscular, explosão…?

Eles no geral procuram “ficar preparados” para suas competições. Nós conscientizamos o atleta muitas coisas serão desenvolvidas para seu melhor aproveitamento, além do treino, uma boa alimentação, descanso adequado e cuidados com a saúde geral são fundamentais.

– Quais são os exercícios mais indicados antes do surfe?

Uma rotina de aquecimento que chamamos de “Preparação de Movimento” é fundamental para preparar o surfista para uma maior performance e não tem diferença se é free surf ou bateria. Na competição entram outros fatores que podem influenciar positiva ou negativamente a performance como a ansiedade, estresse e adrenalina. Costumamos afirmar que o surfista bem preparado fisicamente sempre terá vantagens ao que não tem um preparo adequado, a preparação física é a base da pirâmide e permite bom desenvolvimento técnico, tático e cognitivo/mental.

– Importância do alongamento?

Faz parte do planejamento do treino e é fundamental pois aumenta a capacidade do surfista realizar manobras de grande amplitude, geralmente muito bem pontuada pelos juízes numa competição.

– A procura de surfistas por preparação física tem aumentado?

Bastante, como disse estamos contribuindo para uma mudança de cultura no esporte e uma vez que surfistas de alto rendimento aparecem na mídia treinando e obtendo bons resultados toda esta comunidade passa a valorizar cada vez mais a preparação física específica. Em meu CT aqui em SP temos tido muita procura de pessoas de todos os perfis que praticam surfe de forma recreativa e tem o surfe como principal esporte.

– Em quanto tempo dá para sentir os efeitos da preparação física na hora do surfe?

Digo que com 3 ou 4 sessões a percepção de melhora já é relatada por nossos clientes e atletas. Resultados significativos aparecem com 4 a 6 semanas de prática. – Como surgiu a necessidade de se especializar neste mercado voltado ao surfe? Pela demanda de trabalho crescente em meados do ano 2007 percebi que o treinamento do surfista poderia ter os mesmos contornos dos esportes mais populares e olímpicos, que tem no planejamento e periodização peça básica e fundamental com a realização de pré temporadas e com o treinamento cada vez mais específico as suas demandas.

– Que outros tipos de atividades complementam o surfe?

A natação é fundamental e obrigatória. Outras modalidades como yoga, pilates e trampolim acrobático são muito interessantes também, mas nenhuma se compara ao Treinamento Funcional que reúne características de todas elas.

– Quais são os exercícios mais indicados para evitar lesões?

Existem milhares, não cito um ou outro pois considero que se deve escolher as tarefas em função do indivíduo e suas necessidades. Digo que para evitar lesões o ideal é que se tenha o acompanhamento de um profissional habilitado em Educação Física, especialista em Treinamento Funcional e que conheça a fundo a modalidade surfe, bem como todo o acompanhamento médico que irá cuidar da saúde geral, da fisioterapia preventiva, da nutrição e do controle do estresse. Todos esses fatores irão ajudar o surfista a ficar longe das lesões e caso ocorram serão de menor gravidade e com recuperação mais rápida.

FONTE: Woohoo

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